Mostrar mensagens com a etiqueta escrevendo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escrevendo. Mostrar todas as mensagens

22 de fevereiro de 2011

as pedras do caminho

Um caminho faz-se apanhando pedrinhas. E conchas e flores. E umas coisas brilhantes - parecem cristais, serão escamas. Sementes e coisas que parecem não servir para nada. E pimenta e açafrão. À procura do mistério das coisas, em dias felizes.


as pedras do caminho
(Kusamba, Bali, Indonésia)


vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras

iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias

Al Berto

28 de maio de 2007

uma lua e duas estrelas




















Esta fotografia, tirei-a da janela do meu quarto. Só consegui apanhar uma lua e duas estrelas. Mas não se deixem enganar, havia muitas mais! Estrelas, claro. Consegui contar umas dez! Mas já ouvi dizer que são mais de vinte! Não sei se acredito... Lua dizem que só há uma. Mas posso desenhar mais…
O meu pai diz que nos desenhos tudo pode acontecer. E dá o exemplo do Super-Homem, que voa mas não existe. Mas ainda no outro dia o vi na televisão! De carne e osso. Digo que sim ao meu pai para ele não ficar triste mas acho que devia arranjar outro exemplo. E a lua é a mesma coisa: basta empurrar o meu olho um bocadinho com o dedo e vejo logo duas. Acho que estão sempre lá, mas uma escondida atrás da outra a descansar. E vão trocando. Mas muito depressa para ninguém ver! Sei que isto é verdade porque me disse o meu amigo João. E ele sabe tudo: o pai dele é presidente da junta. Não sei o que é mas deve ser importante. O meu pai diz que ele é um borra-botas. Também não sei o que quer dizer, mas se calhar passa a vida a pisar cocó.
No outro dia também pisei cocó. A minha mãe disse que dava sorte. Isto é como o meu pai diz: não há sorte sem sacrifício. Depois cheirava mal no carro. Mas já estávamos a vir embora. E nesse dia deitei-me tarde como os adultos! Eram vinte e três e vinte e três e ainda não tinha adormecido! Acho que adormeci pouco depois. Mas antes ainda tirei esta fotografia.

24 de maio de 2007

contra a corrente

Hoje esbarrei-me contra uma velha ao cruzá-la no passeio. Sempre tive dificuldade em cruzar gente. Enquanto escolho naturalmente a esquerda, o mundo de destros escolhe a direita. Isso ou o meu eu social reprimido tenta forçar-me a interagir com as pessoas. Se sim, esse eu inconsciente podia ser mais selectivo. As velhas agradeciam.

20 de maio de 2007

hesitações



...
Qual o caminho a seguir quando não se sabe por que caminho se quer seguir?

12 de maio de 2007

o labirinto do fausto

- Olha quem é ele!
- Olá Manel.
- Tudo bem? Não tens boa cara...
- Não ando nada bem! Doenças, doenças, não sei o que se passa… Ainda onte fui ó médico e ele lá disse o que eu tinha mas não apartei nada… Fiquei a navegar
- A navegar ou a ver navios?
- Isso, isso…
- Mas ó pá, também não estamos a caminhar para mais novos!
- Olha, essa é que é essa… E tu, como vai isso?
- Nunca pior... Desde a operação à ciática que me sinto muito melhor… Imagina tu que no último fim-de-semana até fui pescar! Já nem me alembrava da última vez em que tinha pegado na minha cana.
- Muito me contas! Para onde fostes?
- Ali para o Rio Maior. Desde as obras aquilo ficou bonito. Limparam o rio, está tudo muito verde… Não fosse a minha idade até arriscava mergulhar. Disso tenho saudades…
- Oh! Saudades tenho eu daquelas festas que fazíamos no antigamente, quando éramos novos… Se me apanhava agora cinquenta anos mais novo…
- Nem me fales de festas! Antes d’ontem fui à carmesse do teu lar…
- Pois, eu estava muito mal, não pude ir…
- Foi no salão paroquial. Sabes, para engariar… para juntar dinheiro para irmos ver as amendoeiras em flor. E como de costume houve bailarico. E não é que a Alzira, dos dali de baixo, do Zabumba, veio toda lampeira puxar-me para dançar…
- A Alzira tem bom corpo
- Isso era em antes! Agora, bom corpo, só se for para cavar batata, home! Mas, aqui entre nós, aquilo já foi do melhor. Agora… Está tudo velho…
- Como nós!
- Mas para as mulheres em quatro tempos tudo muda… Sinceramente, a Alzira está acabada... Bom, mas é melhor calar-me porque a terra é pequena e as paredes têm ouvidos.
- Olha, nisso vou dar-te razão. É melhor ficarmos por aqui…
- Sabes, ela até tentou dar-me um beijo e
- Ó home, já te disse que não quero saber! A Alzira quando enviuvou desvairou.
- Pronto, não se fala mais nisso. Vamos então ficar por aqui…
- É… Ir por esses caminhos só nos mete em trabalhos…
- Olha, ao menos, no fundo, diverti-me …
- Olha, e é isso que se quer… Que isto da vida de repente já não é…
- Isso é que é uma grande verdade! Às vezes queria voltar ao tempo… sei lá… em que tocávamos no rancho…
- Ó home, isso é que eram tempos! Com a minha viola… E a Albertina a cantar…
- A Albertina-cana-rachada?
- Sim… Recordo-me como se fosse hoje… Eu era muito verde nessa altura… Se soubesse o que sei agora…
- É que nem tocar conseguíamos… Estávamos ali a navegar
- A navegar ou a ver navios?
- Isso, isso…
- Olha, sabes o que te digo?
- …
- Não te digo nada, é o que eu te digo…

8 de maio de 2007

o anti-progresso



















Era a primeira vez que saía de Portugal. "A vida aqui é que é", dizia-lhe o primo João. Era com ele que ia trabalhar. Ouvira dizer que o patrão era um tipo simpático que até nem explorava muito a mão de obra que trazia de Portugal. Só não pagava as horas extraordinárias, que obrigava a fazer, nem subsídio de refeição. Ah, e o salário era metade do mínimo em França, mas ainda assim bastante melhor do que poderia algum dia obter em Portugal. Mas seria o melhor momento para partir? Em Portugal a ditadura estava moribunda e a pressão social já se fazia notar. Diziam que tudo ia melhorar em breve mas não se podia falar muito nisso. E seria a França o melhor país para viver? "Pensava que a tendência natural da sociedade é sempre o progresso." O recém eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, metia-lhe medo. Ainda por cima tinha-o visto na televisão ao lado de um meco de estrada e não conseguiu distinguir muito bem os dois. Aliás, o discurso do meco de estrada foi bem mais cativante. Talvez porque a camisola às riscas vermelhas e brancas o fez pensar no seu Benfica. O futuro não parecia nada risonho...

14 de abril de 2007

procurando






novos caminhos,
outros começos,
objectivos diferentes,
fins esperados,
risos conhecidos,
velhos sonhos,
sonhos nunca sonhados

7 de abril de 2007

para dias menos simples



Quando os regressos forem a excepção.
Quando os regressos não trouxerem uma nova partida.
Então teremos tempo para inventar novos programas.
Como aprender o nascimento de um mural,
entrar nos pensamentos do seu autor e depois ir vê-lo com olhos de ver.

E perceber as palavras que Picasso usou na altura: "A pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra contra a brutalidade e a ignorância".

25 de março de 2007

esqueci-me de te dizer

que hoje o frio só chegou ao fim da tarde. antes o dia tinha sol e calor. e ali ao lado do mondego, os parques estavam cheios de pessoas. que passeavam, jogavam, descansavam e aprendiam. eram tantas que podíamos acreditar que não havia centros comerciais de luzes fluorescentes na cidade.
e só escureceu quando desligaste.

18 de fevereiro de 2007

yin yang




















Duas peças de um mesmo puzzle são forças que se complementam e equilibram, permitindo movimento e mudança. Essas mutações que criam a diversidade essencial à sanidade. Se uma força é fria, a outra é quente e se uma peça é escura, a outra é luminosa. Se um puzzle tiver 1000 peças, 500 são o dia e 500 são a noite. E se tiver 1001?

rituais
























Limitações de espaço obrigam-nos a desprezar o acessório e guardar o essencial. Que mensagem cabe num rectângulo de papel? Uns usam o postal para comunicar, outros para confessar. Eu uso para estar mais perto de casa. Como um ritual.

ervilhas
























Quem vê a verdade nas ervilhas é génio ou é louco? Fechado numa abadia a fronteira é ainda menos clara. Mas num mundo anárquico há leis que perduram. Lei da segregação... Lei da variação independente... E factores que se transformaram em genes. Então é por isso que somos assim?

caleidoscópio

















Mil luzes que se cruzam. Mil luzes que se repartem. Mil luzes que se repetem. Mil luzes? Ou uma só luz?

mãos













Mãos que se pré-encontram, mãos que se encontram, mãos que se re-encontram. Qual o poder das mãos que se tocam? Qual o poder das mãos que se conhecem? Tudo gira à volta do tacto. Toca-me uma vez e serás minha para sempre. Todas as mãos? Não. As tuas. Só as tuas.