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8 de maio de 2007

amor dos fogos
























.... vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicarem o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Amor dos Fogos, Al Berto

o anti-progresso



















Era a primeira vez que saía de Portugal. "A vida aqui é que é", dizia-lhe o primo João. Era com ele que ia trabalhar. Ouvira dizer que o patrão era um tipo simpático que até nem explorava muito a mão de obra que trazia de Portugal. Só não pagava as horas extraordinárias, que obrigava a fazer, nem subsídio de refeição. Ah, e o salário era metade do mínimo em França, mas ainda assim bastante melhor do que poderia algum dia obter em Portugal. Mas seria o melhor momento para partir? Em Portugal a ditadura estava moribunda e a pressão social já se fazia notar. Diziam que tudo ia melhorar em breve mas não se podia falar muito nisso. E seria a França o melhor país para viver? "Pensava que a tendência natural da sociedade é sempre o progresso." O recém eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, metia-lhe medo. Ainda por cima tinha-o visto na televisão ao lado de um meco de estrada e não conseguiu distinguir muito bem os dois. Aliás, o discurso do meco de estrada foi bem mais cativante. Talvez porque a camisola às riscas vermelhas e brancas o fez pensar no seu Benfica. O futuro não parecia nada risonho...

26 de abril de 2007

21 de abril de 2007

calçada #2
















Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

15 de abril de 2007

calçada



















É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.

Fernando Pessoa