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22 de fevereiro de 2011

as pedras do caminho

Um caminho faz-se apanhando pedrinhas. E conchas e flores. E umas coisas brilhantes - parecem cristais, serão escamas. Sementes e coisas que parecem não servir para nada. E pimenta e açafrão. À procura do mistério das coisas, em dias felizes.


as pedras do caminho
(Kusamba, Bali, Indonésia)


vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras

iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias

Al Berto

19 de fevereiro de 2011

metades de mim




Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que triste
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.


[Oswaldo Montenegro]



4 de fevereiro de 2011

não sei por onde vou. não sei para onde vou. sei que não vou por aí!



É um exercício de optimismo. Até saber por onde e para onde vou, identifico os caminhos que não quero seguir.

--
A foto: Leipzig (ou a viagem que me levou ao trabalho de laboratório muitos anos depois, num instituto com condições de trabalho -e lazer!- absolutamente incríveis)
O título: o incontornável Cântico Negro, do José Régio

10 de agosto de 2007

os burros





















[...]
Ele o blasfemo, um lambaz precoce
na casaca, chapéu, calção, sapato,
porém de um olho tão sagaz, tão vivo,
que por fora está vendo o que sois dentro;
que a todos vos chamou burros de casta
(e não se enganou, o pérfido!) e acrescenta
que quase todos sois filhos da puta.
Ainda o ladrão diz mais, diz que sois tolos;
até parece que convosco vive,
pois barrascos vos chama à boca cheia;
dos nossos podres, e dos podres todos,
tem um registo universal o monstro.
Não saberá pregar, mas sabe os nomes
das putas e coirões assinaladas
que dos confins do lusitano império
vão por membros e membros repassadas
do hospital esfaimado ao cemitério.
Vai com ar austero e bordão na dextra,
com sapato lambão pisando as ruas,
cura de aldeia na figura e traje,
e no esguio chapéu sebastianista;
porém ronha até ali! Bispando ao longe
um membro fêmea das famílias nossas,
de urso felpudo com um gibão vestido,
e por cima um filó bordado e fino,
que cobre e descobre o seio e as mamas,
de roxos lírios caça pouco avara,
ou, falemos mais claro, um vestidinho
que, entre as pernas metido, à proa mostra
da pentelheira cabeluda a sombra,
e da popa, ou do cu divide o rego,
acotovela, com risinho amargo,
algum da súcia sempiterna dele,
e diz com aquela voz (sátira e raio)
- Como vai grave a Cónega Fulana?
[...]

Padre José Agostinho de Macedo
Excerto do canto terceiro de Os Burros.

5 de agosto de 2007

os olhos de minha mãe

"P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe."

Sebastião da Gama (excerto)


Parabéns!

2 de agosto de 2007

cabeça de melancia














Era uma vez um Cabeça de Melancia
que todo o dia se sentava absorto
desejando estar morto.














Mas com as coisas que desejamos
precisamos ter cautela.
O último som que ele ouviu
foi o de uma esborrachadela.

Tim Burton
Cabeça de Melancia in A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, traduzido do original por Margarida Vale de Gato, Errata Edições.

28 de julho de 2007

hoje é o teu dia


E também é um bocadinho o nosso dia.
Parabéns!

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny

6 de junho de 2007

é tão bom... uma amizade assim...



Um mimo muito mimado de duas lindas meninas! Para o pano ;)


Vale a pena ver
castelos no mar alto
Vale a pena dar o salto
pra dentro do barco
rumo à maravilha
e pé ante pé desembarcar na ilha
Pássaros com cores que nunca vi
que o arco-íris queria para si
eu vi
o que quis ver afinal


É tão bom uma amizade assim
Ai, faz tão bem saber com quem contar
Eu quero ir ver quem me quer assim
É bom pra mim e é bom pra quem tão bem me quer


Vale a pena ver
o mundo aqui do alto
vale a pena dar o salto
Daqui vê-se tudo
às mil maravilhas
na terra as montanhas e o mar as ilhas
Queremos ir à lua mas voltar
convém dar a curva
sem se derrapar
na avenida do luar


Sérgio Godinho

30 de maio de 2007

um sorriso de portugal

um sorriso

perde-se o meu rio

eu queria que o meu rio
desse a volta ao mundo
a este mundo e a outro mundo
e ao meu mundo
que o meu rio fosse caminho para o céu

perde-se o meu rio no mar que tu cantas
tela branca
palco vazio
onde queria chegar ao altar

sim, encontro o teu nome.

tomara eu conhecer a côr que se esconde
a côr que encontra outra côr
nesta intersecção

um futuro não é frase feita
é romance.
não é mentira
é suposição.

dar-te a minha mão.
e o medo
o medo da entoação do teu não





no verde oscilar das coisas
entendo o vazio claro




aí voltei


e sou em mim um sorriso

quase consigo
quase consigo



Da tree.
Temos mais poesia na nossa morada virtual.

27 de maio de 2007

este é o rio da minha aldeia










O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

22 de maio de 2007

inúteis como os mortos*



















Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

Queixa e imprecações dum condenado à morte, Ary dos Santos

*Inúteis como os mortos é o título de uma peça de teatro escrita por Cunha de Leiradella em 1965.

13 de maio de 2007

awake







Awake.
Shake dreams from your hair, my pretty child, my sweet one
choose the day, and choose the sign of your day,
the day's divinity, first thing you see.

A vast radiant beach and cooled jeweled moon
couples naked race down by it's quiet side
and we laugh like soft, mad children,
smug in the wooly cotton brains of infancy.
The music and voices are all around us.

Choose, they croon, the Ancient Ones, the time has come again.
Choose now, they croon, beneath the moon, beside an ancient lake.

Enter again the sweet forest.
Enter the hot dream, come with us.
Everything is broken up and dances.

Indians scattered on dawn's highway bleeding.
Ghosts crowd the young child’s fragile eggshell mind.

We have assembled inside this ancient and insane theater
to propagate our lust for life and flee the swarming wisdom of the streets.

The barns have stormed, the windows kept
and only one of all the rest
to dance and save us from the divine mockery of words.
Music inflames temperament.

Oh great creator of being,
grant us one more hour
to perform our art and perfect our lives.

We need great golden copulations.

When the true king's murderers are allowed to roam free
a thousand magicians arise in the land.
Where are the feasts we were promised?

Thank you oh lord for the white blind light.
Thank you oh lord for the white blind light.
A city rises from the sea
I had a splitting headache
from which the future is made.

The Ghost Song, Jim Morrison/The Doors

8 de maio de 2007

amor dos fogos
























.... vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicarem o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Amor dos Fogos, Al Berto

26 de abril de 2007

a lembrar...















Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos porquê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado
e passamos a sofrer pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente connosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos
e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional....

Carlos Drummond de Andrade

21 de abril de 2007

calçada #2
















Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

15 de abril de 2007

staring girl









I once knew a girl
who would just stand there and stare.
At anyone or anything,
she seemed not to care.










She'd stare at the ground,













she'd stare at the sky.











She'd stare at you for hours,
and you'd never know why.














But after winning the local staring contest,













she finally gave her eyes
a well-deserved rest.


Tim Burton
Staring Girl (in The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories)

calçada



















É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.

Fernando Pessoa

14 de abril de 2007

porque hoje é dia 14 de abril












Eu conheço dois meninos
que em tudo são diferentes.
Se um diz: "Dói-me o nariz!"
o outro diz: "Ai, meus dentes!"

Se um quer brincar em casa,
o outro foge para o monte;
e se este a casa regressa,
já o outro foi para a fonte.

É difícil conviver
com tanta contradição.
Quando um diz:"Oh, que calor!",
"Que frio!" - diz o irmão.

Mas quando a noitinha chega
com suas doces passadas,
pedem à mãe que lhes conte
histórias de Bruxas e Fadas.

E quando o sono esvoaça
por sobre o dia acabado,
dizem "Boa noite, mãe!"
e adormecem lado a lado.

Os dois irmãos, Maria Alberta Menéres



Parabéns!!

era assim:


era assim:
queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me queres?
quanto me desejas?

ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...

um calculador de improbabilidades
Quimera, 2001

13 de abril de 2007

72 horas de Primavera


When you're near
there's such an air
of spring about it
(...)


Cole Porter.Every time we say goodbye